O que têm em comum o cidadão Manuel Ramos e Maria João Pires, Álvaro Siza Vieira, Maria Helena Vieira da Silva, António Damásio, José Mourinho, Sobrinho Simões?

Eu respondo: “Excelência”.

E vocês, perscrutando os mais recônditos lugares da memória perguntarão às vossas meninges: “Mas quem é este Manuel Ramos?”

Deixem-me contar-vos uma história.

Nos refluxos duma descolonização repleta de entorses sociais e injustiças humanas que trouxe de regresso à terra-mãe os Portugueses da diáspora que espalharam portugalidade por todos os cantos do mundo, chegou de Angola, em 1975, o jovem Manuel Ramos que trazia como bagagem principal o inconformismo, quiçá raiva, de quem é expulso do seu rosebud e uma forte personalidade em ebulição.

Tive-o como adversário nas minhas competições de canoagem. Desde esse momento admirei-lhe o pundonor e a capacidade de autossuperação. Ganhei-lhe uma ou outra vez mas ele ganhou-me muitas mais vezes porque colocou no treino aquilo que o diferencia do comum dos mortais – uma incontornável capacidade de superar a dor, forte motivação e superior disciplina de treino.

Um estágio dos sul-africanos em Vila do Conde deu a oportunidade ao Manuel Ramos para ver como treinavam aqueles que eram na altura os melhores maratonistas do mundo da canoagem. O discípulo aprendeu bem a lição.

O Manuel Ramos, após um apogeu desportivo extraordinário que o alcandorou ao nível dos melhores do mundo nas provas de rio desportivo e maratona, teve de abandonar a prática desportiva intensiva por uma razão muito prosaica – tinha de trabalhar.

Lembro-me de o ver, numa barracão atarracado, com o frio como companheiro das manhãs de inverno, mãos e corpo enregelados, a construir os seus primeiros kayaks, ainda toscos na conceção e feitura mas já impregnados da sua vontade indómita que demonstrava ao numerá-los com esferográfica que mal se notava na fibra.

A partir daí o Manuel Ramos, que era o Nelo para os amigos e colegas de canoagem, passou a ser o NELO – um projeto profissional que transporta muito da vida do seu ideólogo.

Como cresceu o Nelo através da NELO?

Fundamentalmente através da superação de desafios que ele a si próprio coloca a cada momento. Aquilo que os cursos de gestão, marketing, organização empresarial e capacidade de chefia procuram dar nas universidades, desenvolveu-o o Nelo na canoagem e transportou esse élan transformador para a sua indústria nascente.

Superou escolhos e bloqueios e paulatinamente começou a construir o seu futuro. Penso que o Nelo gosta e procura as dificuldades pois essas motivam-no, como uma droga, para a autossuperação.

Quem é hoje em dia o Nelo?

É principalmente um Português de que todos nos podemos orgulhar.

Não posso nem quero separar a obra do obreiro. A obra é a consecução da alma do homem. E o que o Nelo conseguiu até aqui é principalmente fruto da sua insuperável ânsia de futuro. O Nelo acaba um projeto e, após um breve momento de contemplação e regozijo do adquirido, rapidamente parte para outro, como verdadeiro militante do futuro que é.

Está tocado por um forte sentimento de incompletude que é apanágio dos transformadores, aqueles seres que não se resignam com as dificuldades e, contornando-as, abrem novos caminhos de realização.

Do barracão genésico foi crescendo de forma saudável e sustentada. Do barracão inicial passou a melhor construtor nacional de kayaks. Daí, até atingir o patamar da excelência – é hoje o melhor construtor do mundo de embarcações de canoagem – foi um longo mas profícuo caminho.

Senão vejamos.

Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, o NELO obteve 1 medalha.

Jogos Olímpicos de 2000, em Sydney, o NELO obteve 5 medalhas.

Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, o NELO obteve 14medalhas

Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, o NELO obteve   20 medalhas

Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, o NELO obteve 25 medalhas.

Sempre em crescendo onde estará o limite?

Não sei, porque este homem, como militante do futuro que é, só tem os limites que a sua consciência lhe impõe e uma incontornável vontade de vencer que lhe permite ombrear ao lado dos insignes Portugueses que apontei acima.

No momento em que vivemos, fértil em momentos de desistência e conformismo, tomemos o exemplo do Nelo que nos permite acreditar que também nós, quando queremos, conseguimos.

José Augusto Rodrigues dos Santos escreve segundo o novo acordo ortográfico