Miguel Barbot de bicicleta com o filho

Foto cedida por Miguel Barbot

Ando de bicicleta sem medos.

Pego na bicicleta e naquilo que tiver que pegar e vou. Vou carregado com pessoas e tralhas, sem capacetes, sem frescurinhas, mas com cuidado e o respeito possível pelo código de estrada.

Há vezes em que passo vermelhos, admito. São aquelas em que não vem ninguém. Há vezes em que ando em sentido contrário, quando não há perigo, objectivamente. Pecadinhos inocentes, justificados por ser apenas a minha integridade a estar, no campo teórico, em risco.

Há coisas que não faço. Entre essas coisas que não faço inclui-se andar em cima de passeios. É que acredito que há uma espécie de hierarquia na estrada. Essa hierarquia é a inversa da da maioria das pessoas que usam a rua e tem como o seu topo o querido peão e, bem lá na base, os pesados e usurpadores monstros fumegantes de lata.

O peão manda. O peão é mais que as bicicletas, é mais que os carros, é mais que os outros peões que correm. É mais que o metro e mais que o autocarro.

O peão tem o direito à cidade. Tem o direito de cortar a direito sem olhar e o direito de andar a direito sem se desviar. Somos nós, todos os outros, que lhe negamos esse direito. Aos bocadinhos.

É por ter isto bem presente, que há dias, muitos, quase todos, em que me sinto culpado. É nos dias em que carrego o meu bem mais precioso na bicicleta.

Não tenho carro e não me sinto na obrigação de o ter. Sinto-me no direito de transportar o meu filho na bicicleta e sinto esse direito negado por não ter por onde.

Entre Leça, a escola, e a rotunda da Boavista, a casa, são uns bons quilómetros. Tirando os paredões à beira-mar, não há ciclovias, só aquilo na Avenida da Boavista, que obriga a uns atravessamentos radicais.

Depois disso não há mais nada. Só o passeio. E é pelo passeio que vamos. Devagar, a ritmo de peão quando os há. Tilinto a campainha, com um sentimento de culpa e um sorriso embaraçado, a pedir desculpas por não meter o meu filho no meio do inferno de lata.

Num dos dias mais quentes do ano, subi como sempre a Boavista. Contei dezenas de ciclistas. Uns no meio dos carros, outros no passeio, outros na faixa bus. Todos sem saber por onde ir.

Alguns deles eram velhos conhecidos, outros nem por isso. Quase todos sorriram para o rapaz da bicla esquisita que leva o filho atrás.