Mobilidade

Foto: Flickr

Na semana passada tive o prazer, ou desprazer, que ainda estou a pensar nisso, de ir ao Porto Canal participar num debate sobre comércio tradicional (“Concelhos e Negócios” de 17 de Maio). É que sou um comerciante desse tipo, agora sim, com muito, mesmo muito, prazer.

Não sei se sou um parvo, se sou um visionário, mas acredito mesmo que as coisas vão mudar e que a “suburbanice” dos shoppings está de dias contados e que o futuro passa, tal como o passado passou, pela rua. Isto é válido tanto para o mainstream, como para o comércio de bom carácter.

Fiquei aterrorizado, mal cheguei ao Porto Canal, com a conversa que ouvia na antecâmara do estúdio. Falava-se de carros e da absoluta necessidade de os ter à porta das lojas para o comércio tradicional acontecer. Foi por isso que entrei no estúdio já mal disposto, apesar de não parecer. É que disfarço bem e também não queria esta guerra ali, que se falava de outras coisas.

O Nuno Camilo, presidente da Associação dos Comerciantes do Porto, a caminho do terceiro mandato, era o autor do discurso, que foi continuando debate adentro. Entre amostras dos típicos papéis com os dados da desgraça e uma ou outra coisa que já todos ouvimos muitas vezes, lá foi atirando coisas como “alguns comerciantes ficam chocados quando defendo que a Rua das Flores não pode ser pedonal” ou “o Porto é muito acidentado e as pessoas não podem carregar sacos entre Santa Catarina e Cedofeita”. Foi neste ponto que percebi que o que defende o Nuno Camilo, rapaz ainda novo, é a transformação do automóvel numa espécie de carrinho de supermercado.

O que os papéis com os gráficos da desgraça não dizem é que o modelo de desenvolvimento autocêntrico das cidades, fortemente ancorado em paradigmas de meados do século passado, foi uma das causas mais directas do declínio daqueles que supostamente defende: o esvaziamento em massa dos centros das cidades para os subúrbios, onde os especuladores do costume trataram de construir os monstros comerciais com todos os confortos para quem faz o bypass à cidade dentro de uma lata, perpetuando o ciclo estacionamento do trabalho – estacionamento do shopping – garagem lá do condomínio – estacionamento do trabalho.

O que os gráficos da desgraça também não dizem é que ninguém vai de carro, a pé ou de bicicleta comprar um mau produto, caro e a uma hora inconveniente. Também não dizem quais são os atributos de um outro comércio tradicional, o de qualidade e que funciona, que continua de boa saúde, mesmo sem estacionamento à porta.

Felizmente, muitos comerciantes do Porto já perceberam o que é necessário fazer e são eles que estão a voltar a dar vida à cidade, ao arrepio da doutrina ultrapassada da  sua Associação.