Pingo Doce

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O imperativo que subjaz a qualquer primeiro de Maio – Dia Mundial do Trabalhador – radica na dignificação do valor do Trabalho, no respeito pelos Trabalhadores e Trabalhadoras de todo o Mundo e na defesa dos direitos laborais inalienáveis alvo de lutas desde séculos e séculos, carregados de avanços e recuos, de progressos e retrocessos.

Neste sentido, o dumping do pretérito primeiro de Maio realizado pelo Pingo Doce, que desta vez decidiu ser ainda mais doce para os consumidores portugueses através da descida dos preços dos seus produtos, comporta em si mesmo uma ação de verdadeira ofensiva e desrespeito pelo Dia dos Trabalhadores. Não quero com isto culpar os consumidores que, logicamente embriagados pela sedução das rebaixas, lá foram comprar os produtos do mês ou dos meses seguintes, com consequências óbvias no conforto das suas carteiras, sempre tão aflitas nestes tempos de crise.

Dois acontecimentos merecem, contudo, um breve comentário da minha parte.

Primeiro, o aparente “desconhecimento” do Governo desta situação e a insensatez de um grupo económico – a Jerónimo Martins – que ainda há pouco tempo ameaçava com a intenção de fugir de fininho com o seu património de Portugal. Afinal, parece que antes de sair do território luso, a Jerónimo Martins quer espremer muito bem o que tem a espremer, sugando até ao tutano os recursos portugueses que tão hostis, diz Soares dos Santos, têm sido para a expansão do seu património já pesado.

Segundo, enquanto as massas se movimentavam todas para o Pingo Doce, o primeiro-ministro de Portugal, num encontro com os Trabalhadores do seu partido (é algo bastante englobante, reunir-se apenas com Trabalhadores do seu quadrante político), anunciava com o maior descaramento que o número de desempregados pode aumentar, que isto do desemprego não é algo que acabe de um dia para o outro. Uns podem ver nestas palavras um discurso realista. Eu vejo-o como um discurso que serve de alavanca para continuar o “pacote de obstinação” contra o povo português.

Em relação ao caso Pingo Doce, espero francamente que a autoridade para a concorrência esclareça e denuncie a posição assumida por este grupo económico e que se pronuncie face à deslealdade de colocar produtos abaixo do seu preço de custo com consequências para a manutenção e ampliação da oligarquia económica que este grupo já detém. Aguardo de igual forma que a ASAE, sempre tão lesta a funcionar quando se trata de pequenos comerciantes, apure efetivamente a responsabilidade da Jerónimo Martins em todo este processo.

O movimento de massas, que deveria estar concentrado nas ruas e nas avenidas desse país fora, acabava por sucumbir ao engodo do Pingo Doce, levando a que as enchentes nos estabelecimentos servissem para desacatos e distúrbios entre estes “desafortunados”. Esta mobilização, carregada de boas intenções pelo Pingo Doce, teria como consequência o desviar da atenção das massas relativamente aos assuntos que a elas dizem respeito, o direito ao emprego digno, à restituição dos subsídios usurpados, o direito à proteção face ao desemprego ou à velhice.

Afinal de contas, o que importa quando se vê um esfomeado é que se lhe dê o peixe, que nunca o ensinemos a pescar. Isto de ensinar coisas aos esfomeados e aos pobres tem muito que se lhe diga, já nos disse taxativamente a nossa história, é algo que está, digamos assim, na genética da história de Portugal. E os “saldos” para a “povaça” no dia primeiro de Maio – Dia de Todos os Trabalhadores – foi mais uma tentativa para alienar desenfreadamente a consciência coletiva do nosso Povo.

Simão Mata é psicólogo e escreve segundo o novo acordo ortográfico. O texto foi enviado para a Opinião Porto24. Pode enviar também os seus artigos.